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Duas lições que podemos tirar da Copa do Mundo.

by Maria Beatriz Lobo - julho 29th, 2011.
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 Conforme prometi, segue texto que escrevi durante a Copa do Mundo de Futebol de 2010 e finalizei logo que a Copa acabou:

Acompanhei, como faço há mais de 35 anos em todos os grandes eventos esportivos, os comentários e reportagens de vários tipos de mídia, na fase pré, durante e pós Copa do Mundo, e, pelo menos para mim, como educadora, psicóloga e mulher torcedora de vários esportes, essa Copa de 2010 motivou algumas reflexões que, mesmo vindas de alguém que não é uma estudiosa no assunto (aliás, essa é uma das poucas áreas em que os comuns mortais podem opinar com os mesmos “direitos” dos especialistas, pois muitos deles também nunca pisaram em um campo de futebol), que me permitiram chegar a, pelo menos, duas conclusões, que creio merecem ser compartilhadas e que sei que serão devidamente refutadas, como de praxe.
Primeira conclusão: os analistas esportivos em geral e a população em sua maioria usam dois pesos e duas medidas para avaliar situações idênticas, sem qualquer compromisso com a coerência e com a realidade dos fatos.
Vou explicar esse ponto de vista, mas gostaria que um pesquisador em comunicação social buscasse a confirmação dessa afirmação por meio da confrontação dos postulados apresentados pelos jornalistas e comentaristas antes, durante e depois dessa Copa comparando com o que foi defendido ao longo desse tempo por eles próprios em relação ao histórico do Dunga à frente da Seleção Canarinho e em relação às demais seleções (podem usar outras copas como exemplo, pois acredito que chegarão à mesma conclusão, mas dessa vez ainda com maior inclinação da curva de tendência).
Defendo essa conclusão depois de assistir, dia após dia, os palpites sobre os jogos e os resultados que aconteceram em campo e esperar no dia seguinte que se fizesse uma análise critica dos erros dos comentaristas, e nada! Semanas depois e tudo já foi esquecido, as gafes, os palpites chutados para além das arquibancadas foram parar debaixo do tapete.
Não vi na TV e, praticamente em nenhum jornal, com exceção de um cronista ex-jogador e alguns cronistas satíricos, argumentos ou teses sobre o desempenho das seleções que se mantivessem e se sustentassem ao longo do tempo, pois muitas vezes, já no dia seguinte, contradiziam o que foi dito no anterior, sem qualquer constrangimento.
Como tenho boa memória e discutimos muito em família as opiniões externadas pelos maiores expoentes dos jornais e TVs, credito boa parte dessa incoerência à defesa insustentável do princípio por detrás do principal argumento de nosso “fracasso” na África: de que essa Seleção não representa o Brasil e o jeito brasileiro de jogar futebol.
Infelizmente, esse não é um statement aplicável só a esse time, pois é um paradigma que dura há décadas no Brasil e que ronda todos os programas e colunas daqueles que se consideram os verdadeiros amantes e defensores do bom do futebol (e de outros esportes em geral) que se contrapõe, de forma equivocada, ao que se considera uma visão pragmática dos que querem o resultado independentemente da beleza do jogo.
Esse paradigma permite até hoje a exaltação de técnicos e de seleções que, após o tricampeonato conquistado em 70, não foram em nada melhor ou mais longe do que essa Seleção de 2010 e os que conseguiram – casos de 94 e 2002 – continuam sem agradar e não convencem aos saudosistas de plantão.
Percebam que os seus respectivos e vitoriosos técnicos (dos nossos tetra e pentacampeonatos) ainda são chamados de retranqueiros (como se algum país hegemônico em qualquer esporte não fosse, há pelo menos 40 anos, especialista em defesa – reparem que “defense” é a palavra que se grita em vários esportes para motivar os times e não ”attack”!). Já ouvi até que eles são verdadeiros “assassinos do nosso futebol arte”.
Nessa Copa esses “retranqueiros”, Parreira e Felipão, foram até perdoados, momentaneamente é claro, e chegaram a ser citados como antíteses para justificar os equívocos de Dunga, vejam só! Os defensores do futebol arte acham um absurdo que se abra mão dos craques que driblam e encantam com a plástica de suas pedaladas e passes de calcanhar (movidos pelo encantamento que despertam sem qualquer análise da efetividade dessas proezas para o real objetivo do jogo que é o gol), não aplaudem bons desarmes nem valorizam os jogadores que “carregam o piano” como sendo tão importantes quanto os protagonistas que fazem os gols.
Ainda choram a falta do grande craque! Entretanto, os craques da vez não ajudaram seus times a passar das quartas de final (Kaká, Messi, Rooney, Cristiano Ronaldo, Drogba entre outros).
Vamos lembrar também que os times que passaram para as semifinais e finais, e mesmo o campeão – a Espanha, provaram que não foram os craques mais badalados os jogadores realmente decisivos nos resultados de seus times e que times sem craques fizeram bonito, como o Paraguai que chegou longe sem Cabanãs e a Alemanha que até jogar contra a Espanha não sentiu falta de Ballack, pois a ausência do novo Müller é que foi fatal.
Sem falar de Furlan que, antes esquecido, foi de fato o craque na Copa. Ou seja, esquadras sem grandes craques, totalmente desprezadas pela mídia, provaram que só camisa e grandes nomes não garantem bons resultados em torneios curtos como a Copa do Mundo.
Quem não ouviu comentários de desprezo contra a Nova Zelândia que saiu invicta, ou de surpresa com os times asiáticos avançando para as oitavas e mesmo com os Estados Unidos fazendo com Gana o jogo dos azarões?
E o heroísmo do Uruguai, que alguns tiveram o desplante de dizer, após a derrota para a Espanha, que tinha entrado pela porta lateral por ter vindo da repescagem nas eliminatórias?
Ao chegar a final, apontavam-se os novos craques dos times, sendo que eles nunca haviam sido citados antes como jogadores que poderiam “fazer a Copa”, como Villa e Xavi da Espanha e Sneijder da Holanda.
Mesmo que se ouça muito que, de fato, craques isoladamente não são suficientes contra um time bem postado coletivamente, essas considerações apenas apontam as contradições de analistas que querem toque de bola, valorizam muito mais o poder ofensivo e ainda cobram muito dos craques (se não jogam bem, são uma frustração e quando fazem um único lance que se torna gol são os que desequilibram!).
Ou seja, que time seria esse e em que planeta ele joga? Não me digam que é a Espanha, que marcou 8 gols (ofensivo?) e tomou apenas 2 (olha a defesa aí gente!). Prova disso é que as qualidades da defesa brasileira nunca foram páreo para apoiar a escalação de Dunga diante dos “crimes” cometidos por ele na convocação do meio campo e do ataque.
Depois do gol de empate holandês então, o trio da defesa, com jogadores campeões europeus, incluindo o melhor goleiro do mundo, virou quase uma turma de “imaturos e quase peladeiros”.
Não há como negar que os brasileiros em geral, e os analistas esportivos em particular (com raras e honrosas exceções geralmente vindas de ex-jogadores conscienciosos que escrevem ou participam de programas de TV), ainda não se renderam à dura realidade:
- os times mudaram em todo mundo, muitos aprenderam a se posicionar e a se defender; mesmo os times criticados por jogar atrás também sabem driblar e fazer boas tabelas e contra-ataques (alguns programas fizeram até uma coletânea de belos dribles dos mais variados times);
- que na fase classificatória, mesmo os times mais brilhantes tendem a ter mais dificuldade porque, não sendo fase de mata-mata, tomar gol é pior do que não fazer gol;
- que os sul-americanos foram muito mais eficientes na fase classificatória e que era para ser uma Copa América (mas as finais foram uma Eurocopa).
Sei que ao usar esses argumentos acabo entrando no debate técnico que move paixões, mas usei os argumentos que a própria imprensa e comentaristas usam quando analisam não o Brasil, mas apenas os outros times! Ou quando justificam (o que raramente acontecem) seus palpites furados.
Quando vamos encarar a realidade dos fatos? Não temos mais, Argentina e Brasil, os melhores times, com solidez e equilíbrio emocional para virar resultados, ou chegar lá.
Além de não terem autocrítica, não sabem criticar os outros com isenção (nem é preciso usar o Uruguai como exceção, que fez bonito, pura raça, e que não fazia parte das previsões de nenhum dos sabichões!).
Pessoas que, profissionalmente, vivem de analisar e criticar o futebol com mais condições técnicas do que os simples torcedores, não podem deixar de analisar essa cegueira que toma conta da imprensa, mais do que do povão, exatamente o que nos leva a apontar mesmo a falta de autocrítica, ou se preferirem, de compromisso com a verdade: ou por uma amnésia alimentada pela impunidade, ou pela existência de uma convenção de deixar passar o que disseram ou escreveram os colegas, principalmente se forem da mesma rede de TV ou jornal.
Quem não ouviu durante a Copa algo do tipo “esse time não tem como fazer frente à campeã européia” no jogo de estréia da Espanha, ou um palpite que só considerava a última atuação do time como “depois da vitória incontestável do primeiro jogo, não há o que a Servia possa fazer contra a Alemanha”, ou a xenofobia expressada em frases como “fico com os sul-americanos contra qualquer europeu, por isso aposto no Paraguai 2×1” (frases parecidas também ocorreram como simples demonstração de que alguns só sabem torcer como faz qualquer cidadão)?
Quem não mostrou surpresa, mas ao mesmo tempo nenhuma vergonha por não prever que França e a Itália estariam fora da Copa tão cedo?
A prevalência do que é politicamente correto sobre a análise do contexto do jogo chega a dar náuseas: “aposto no time do Parreira porque o povo africano, tão sofrido com o racismo e a miséria, não merece ser a única anfitriã a cair na primeira a fase”.
Isso sem falar nas afirmações das mesas redondas que estiveram na África, de várias redes de TV, que infelizmente, não aparecem em replay como os erros dos jogadores.
Foram dezenas de palpites ridiculamente arrasados pelos resultados e outros que mostraram pura perseguição com o nosso técnico Dunga. Vamos usar só alguns exemplos:
 -“A África do Sul não perderá de nenhum time na fase classificatória”! - “Uma seleção não ganha Copa sem ter um bom banco de reservas. Vejam só a força do banco argentino!”
 - “O Brasil depende tanto de Kaká como a Argentina depende de Messi, mas como o nosso craque ainda sofre com dores, a Argentina leva imensa vantagem!”
 - “É uma cena tocante ver o sofrimento do Maradona que se dedicou com afinco à sua Seleção” de um lado e do outro “Dunga foi o único que não chorou nos vestiários!”
- “A Espanha é a representante legítima do futebol que queremos ver no Brasil!”.
Para pontuar outros exemplos, e esses são os mais preocupantes, e mostrarmos a falta de isenção dos nossos comentaristas e do povo em geral, é só lembrar algumas das pérolas futebolísticas e ideológicas que lemos e assistimos nesses últimos meses sobre o trabalho do Dunga e comparar ao que se ouviu no passado e ao que aconteceu nessa Copa:
Dunga escolheu o time errado, pois deixou no Brasil os jovens mais talentosos, aclamados pelos amantes da bola e ovacionados por toda população! – Eles podem até ser o nosso futuro e parecem ter talento mesmo, mas não tem nenhuma experiência internacional contra times estrangeiros e ninguém comenta (há um total e oportunista silêncio) sobre o estado do joelho de um dos novos preteridos gênios da bola que se operou assim que foi “desconvocado” por Dunga e sobre a infantilidade comportamental do outro em vários episódios do campeonato.

  • Dunga errou porque não convocou, também, os veteranos com muito mais qualidade técnica e genialidade do que alguns jogadores que foram convocados! – Exatamente os mesmos jogadores super criticados ao longo de todo o ano pela péssima atuação nos clubes, na própria Seleção (nem é preciso lembrar o episódio das meias!) e por suas condições físicas e técnicas.
  • Dunga personificou uma era e montou um time à sua feição e por ser desequilibrado emocionalmente passou isso para a equipe como um tsunami nefasto, que nos fez perder para a Holanda! – Já Maradona (que fez sua convocação movido 100% por razões pessoais e chegou a ser considerado super favorito ao título) quando grita e agride verbalmente (até o nosso atleta do século) é apenas um excêntrico, seus destemperos são resquícios de sua genialidade e sua abertura para as entrevistas e para uma concentração democrática fizeram dele a figura da Copa e um treinador melhor do que o brasileiro (mesmo tendo todos sido unânimes em dizer que, apesar da defesa argentina não ser do mesmo nível do resto do time, individualmente o time de Dom Diego era muito superior ao nosso, mesmo depois de ter sido eliminado de forma mais vexatória que qualquer outro time nas quartas de final). 
  • Dunga foi piegas na exigência diuturna do comprometimento patriótico, na exaltação à camisa amarela e que ainda foi capaz de confinar nossa Seleção de forma autoritária, aos moldes da repressão da ditadura (só alguém muito obcecado ideologicamente pode fazer esse tipo de comparação, mas esperem que o Terceiro Reich pode ser o próximo exemplo a ser usado!). – Lembrem-se que a abertura da concentração (ao público, à imprensa, aos agentes etc), a falta de dedicação das nossas estrelas e o desprestígio da Seleção, que não era mais um sonho dos jogadores milionários que jogavam na Europa, foram recorrentemente e são até hoje apontados por 99 de cada 100 brasileiros e boleiros como a(s) causa(s) de fundo da derrota de 2006.
  • Dunga montou um meio de campo medíocre, o Brasil jogou na base do contra-ataque, o que não é tão eficaz quanto nossa capacidade de tocar a bola! – O contra-ataque foi exatamente a força da Alemanha que de fulgurante na partida inicial foi parar no limbo quando perdeu sua segunda partida, depois voltou como maior exemplo de jogo eficiente que mesmo não utilizando “dribles e pedaladas”, virou a grande unanimidade de “jogo bonito e bem armado”, (principalmente após a queda do outro exemplo do futebol arte por um placar vergonhoso) e depois voltou a ser criticada por não saber jogar com times que tocam a bola ao perder da Espanha.

Ninguém acertou nada nessa Copa, todas as teses foram ao chão, subiram aos céus e caíram novamente, essa é a pura realidade!
Agora, a segunda conclusão: não é verdade que o povo brasileiro não tem memória, pois tem sim, exatamente como nossa imprensa: excelente, mas extremamente seletiva memória.
Para essa afirmação eu não espero boa contribuição da academia e já imagino a revolta dos aproveitadores do “pão e circo”, mas tenho absoluta convicção de que os brasileiros esquecem com muito mais facilidade políticos que passam anos na mídia por atos óbvios (muitos até confessos) de corrupção, mau uso de dinheiro público e enriquecimento ilícito (e até os reelegem, incluindo os que renunciaram para não perder seus direitos políticos), de ladrões, estupradores e pedófilos do que dos técnicos de futebol e jogadores que, na opinião de alguns, não suaram a camisa, ou quiseram dar ao nosso time uma feição diferente daquela que acreditamos que nos faz grandes no futebol e na vida: alegria, beleza e espetáculo!
Chegaram a justificar a ausência de festa da chegada da nossa Seleção ao Brasil em razão da prepotência do nosso técnico e do afastamento do time do povo, o que é um disparate, o contrário do que ocorreu com os “hermanos” argentinos, paraguaios e uruguaios que receberam suas seleções com carnaval, medalhas e honrarias.
Pergunto: que seleção brasileira que não tenha sido campeã já foi recebida com festa semelhante às que vimos nesses países? Nenhuma, seja com Parreira, com Zagalo ou com Têle!
Afinal, do que podemos acusar o Dunga:
- que ele fez o que foi lhe pedido quando foi chamado?
- que ele testou e provou praticamente todos os jogadores apontados como dignos de vestir a “amarelinha” e optou por uma base que trouxe ao Brasil excelentes resultados e troféus na fase preparatória da Copa, contra tudo e contra todos?
- que mesmo assim ainda teve a coragem de abrir mão de quem, mesmo sendo do grupo fechado, nos últimos meses não fez por merecer a Seleção, mais ainda por não ser um bom exemplo do que por questões técnicas, como foi o caso do Adriano?
 - que ele usou da mesma coragem e determinação que o fizeram reconhecido como um guerreiro que perde lutas, batalhas, mas já ganhou várias guerras para afastar a imprensa e os curiosos e para não permitir o uso mercenário da Seleção pela CBF e seus patrocinadores?
Infelizmente o Dunga será crucificado muito mais por suas qualidades do que por seus defeitos.
Eu mesma achei uma imprudência escolher um técnico sem experiência na função, mas olhando para trás, honestamente, onde ele foi tão pior que os nossos técnicos que também não foram campeões?
Pergunto porque só se compara os que ganham com os que ganham e os que perdem com os que perdem e quem não foi campeão fracassou, não é assim? Já adianto que discordo de algumas atitudes dele, que foram incompatíveis com o cargo, como as agressões verbais que ele fez ao jornalista da Globo.
Tenho certeza que ele já se arrependeu disso e não estou defendendo seus defeitos, aliás, atire a primeira pedra quem não os tem! Mas só merece respeito quem se pendura em algumas redes de TV!
Faltava experiência a ele como técnico, sem dúvida, mas quem o colocou lá sabia disso e esperava trocá-lo em 2008, mas com os resultados alcançados, como descredenciá-lo? E se perdemos para o time vice-campeão do mundo, em um jogo apertado de 2 x 1, porque o Dunga foi pior que os outros técnicos?
Muitos dos que criticaram Dunga o fizeram sem qualquer responsabilidade sobre se seu trabalho daria certo ou não, chegaram até a defender o jornalista que publicou as imagens do treino secreto da Seleção (que outro país faria isso sem pensar que é isso torcer contra sim?) e ainda continuam na base do “eu disse lá atrás…, nós cansamos de falar aqui…” e esquecem as milhares de asneiras que também disseram (das quais pincei só alguns exemplos e nem sei se os melhores).
O Dunga pode ter cometido falhas em suas opções profissionais e vai pagar por elas. Assumiu o risco quando escolheu e manteve o Felipe Melo, mas o tempo vai ensiná-lo que em alguns casos, não se deve contar com o que não se controla e ele vai reconhecer esse erro um dia.
Quando ele tomou decisões, com certeza usou as informações de que dispunha e os valores que defende (e pelos quais foi escolhido!).
Errou na escalação? OK. Que jogadores em plena forma técnica, tática, emocional e física na época da convocação para a Copa ficaram de fora da Seleção? Se vocês encontraram 2 ou 3 nomes, falamos de 10% a 15% do total. Quem desses 10% ou 15% também tinha a aderência com o grupo, que precisa existir para que uma equipe seja vencedora, em relação aos demais 90%? Chegou a um número expressivo? Não? Nem se preocupe, pois ninguém chegará, afinal estamos mesmo numa entressafra e não temos nenhum de nossos jogadores entre os 10 melhores jogadores do mundo em 2010, isso é um fato!
Ele priorizou a montagem de um certo grupo (e a família Scolari?), fez opções como todo líder tem que fazer, avançou, mas caiu, e não caiu mais ou de forma mais vexatória do que os demais que caíram nas quartas de final, mas não se esqueçam que os demais países que voltaram para casa antes das semifinais estão muito orgulhosos de seus times e técnicos.
Algumas questões técnicas, escolhas e decisões podem ter sido equivocadas, mas isso não faz dele um vilão, um ser execrável que vira piada nacional quando os verdadeiros ladrões de nosso dinheiro e de nossa cidadania continuam na vida pública com toda cara de pau e vários cheios de votos e rapapés… Tivemos problemas psicológicos para vencer e teremos outros iguais enquanto nosso futebol for prioridade nacional.
É muita pressão para qualquer mortal, para qualquer time. Será que dá para imaginar o que esse homem passou nesses 4 anos?
Dunga é um sujeito tinhoso, convicto, que talvez não tenha mesmo gênio para aguentar milhões de palpites de todos os tipos, vários deles defendendo seus times locais, seus interesses comerciais, suas ideologias políticas e esportivas, sua linha editorial ou sua audiência.
Talvez outras pessoas tenham sangue mais frio, sejam mais bem preparadas, ou os que suportam isso suportam em nome de quê? Teve falhas técnicas, relacionou-se mal, foi muito duro, até mal educado várias vezes (mais ainda que o Felipão que assim que voltou ao Palmeiras também fechou as entrevistas à imprensa, ou o “vão ter que me engolir” do Zagalo), mas ele passou vários valores absolutamente corretos, dos quais nossa sociedade em geral, e principalmente nossa juventude, carecem muito e ainda prefiro, com todos os problemas, as razões que levaram o Dunga a errar do que os argumentos que usam para apontar seus defeitos.
Só quem esteve em um cargo de liderança importante pode chegar perto de entender, pelo menos em parte, o que Dunga passou e passará. A solidão do líder é absoluta, mesmo que ele consiga montar um time coeso, que divida com ele seus problemas e angustias e o importante é que ele ficou. Assumiu, tentou e não se acovardou.
Não conheço o Dunga e não tenho razão pessoal para defendê-lo, mas o admiro mais do que à maioria das pessoas que assumem posição de liderança no Brasil!
O Brasil não aceita bem a liderança assertiva, ou quem defende o esforço contínuo e o sacrifício da vida pessoal como os únicos métodos que se pode aplicar em uma equipe para se chegar ao sucesso de forma consistente, e só tolera (engole mesmo) quem é um líder exigente se ele tem sucesso total, ou seja, quem chega lá, várias vezes, de forma inconteste, como o Bernardinho no vôlei.
Merecidamente ele é considerado um exemplo, mas já o era quando começou e hoje ninguém liga para seus “pitis” e mesmo assim Bernardo ainda enfrenta polêmicas e questionamento de sua conduta como no caso Ricardinho.
Nós lidamos muito mal com quem expõe suas convicções e seus valores e os defende com garra, pois achamos que cada um pode e deve ter seus próprios valores, mesmo que isso desmonte a estrutura que faz a base de uma sociedade feliz e equilibrada.
Como na política, os verdadeiros responsáveis pela desilusão do futebol (e do esporte nacional em geral) como sempre colocaram a culpa na comissão técnica, no treinador, nos jogadores, no juiz, não importa, desde que possam manter seus cargos e privilégios.
De toda a Copa do mundo, nenhuma cena foi mais asquerosa do que ver o Galvão Bueno entrevistar o Presidente da CBF, esculachar o técnico e depois assumir que ele é quem escolhe, sozinho e sem ouvir ninguém o técnico da seleção brasileira. Então de quem é a culpa?
Não vamos nos iludir, pois nossa memória coletiva seletiva vai poupar e fingir que não foram os peixes grandes os responsáveis pela seleção fracassada e pelo país do futebol sem estádios dignos, pois esses ficarão longe da rede e vão pregar a “renovação”, exatamente como pregaram em 2006, mas que só vale para a seleção, mas não para a CBF!
Os cartolas da CBF, o ditador que escolhe sozinho o técnico da nossa Seleção (mas não assume a responsabilidade dos fracassos, só das vitórias), vão continuar mandando, vendendo nosso esporte e usando a avalanche de dinheiro que vem e vai dos diferentes esportes (e ainda temos 2014 e 2016 pela frente…) impunemente e sem enfrentar a nossa raivosa torcida.
Só os peixinhos pagarão o pato (sem trocadilhos) e muita gente vai acabar contribuindo com as críticas sem base, sem coerência, defendendo o que só depois do desastre pareceu defensável, mesmo sem saber e por puro amor ao jogo, que ajudaram a assar mais uma rodada de pizza.
Tudo aqui pode ser negociado, todos têm que agradar a todos, só se fala o que as pessoas gostam de ouvir e aceitam, só se muda por consenso, então a única coisa que não pode ser vetada é ficarmos como estamos e a voz contrária à corrente política vigente é execrada.
Sejamos então mais corajosos ao criticar nossos políticos e a nossa sociedade do que ao julgar alguém que estava fazendo seu trabalho.
Não é possível que a sociedade brasileira continue a cultuar o futebol mais do que a justiça, ou admirar mais um craque com os pés do que uma pessoa verdadeiramente educada!
O tempo dirá se também aprendemos, como Dunga deve aprender, a parte que nos cabe. Sua passagem pela Seleção pode fazer muito mais bem ao Brasil do que se pensa hoje.
Como líder positivo que você é Dunga, não abaixe a cabeça, não desista de seus bons valores, reveja seus equívocos e siga em frente!
Temos muito mais razão para admirar do que para criticar seu comportamento, porque afinal, temos que ver o conjunto da sua obra que é – em sua vida como homem, jogador e técnico – muito mais positivo do que querem aceitar os defensores do Brasil que esta aí!

06 de agosto de 2010 Maria Beatriz Lobo Psicóloga e Educadora

1 Resposta para Duas lições que podemos tirar da Copa do Mundo.

  1. a fase de ouro do futebol brasileiro acabou, atualmente sinto tristeza de ver jogo pela tv, penso que muitos brasileiros que gostavam de ver futebol no campo ou na tv tem o mesmo pensamento, o futebol hoje é muito feio, não tem mais a qualidade de antigamente,não perco tempo mais buscando noticias de futebol, na verdade nem gosto de ouvir falar desse esporte.

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