Um dos assuntos que eu sinto ser mais sensível, mas ao mesmo tempo mais presente no cotidiano das famílias se relaciona à forma como os filhos estão sendo criados e à sensação de que, sob muitos aspectos, os nossos jovens (desde crianças e as crianças também) parecem ter “saído dos trilhos”.
Eu sei que é polêmico e que ninguém gosta que falem dos nossos filhos, que dirá de como nós os criamos, mas não consigo me calar diante da omissão quase generalizada que vejo nos mais diferentes tipos de família – casais novos ou não, ricos ou pobres, com escolaridade alta ou não, enfim, com raras e honrosas exceções.
Para que todos acompanhem onde quero chegar, preciso apontar uma referência: tenho quase 50 anos (faço em abril de 2012) e me considero a geração “sanduiche”: não vivenciamos o rigor (considerado, por muitos, autoritário) da criação de nossos pais, mas também não aprendemos a lutar por um ideal, ou defender valores que se contrapõem ao individualismo, materialismo e imediatismo que vemos hoje.
Parece que quem viveu o auge da ditadura e lutou pela liberdade de expressão achou que deveria seguir a mão aposta de sua criação na adoção e aplicação de valores quando chegou a hora de educar seus próprios filhos.
Uma negação do passado, uma tentativa de romper com o que poderia ser ruim, mas radicalizando para o outro extremo: não vou criar meu filho(a) como fui criado e quero ser amigo(a) dele(a)!!!
Isto foi o que eu mais ouvi e até achei que poderia ser um grande avanço para a sociedade, mesmo não sentindo a mesma necessidade, pois olho para trás e vejo que mudaria muito pouco na minha criação e, ao olhar o resultado e vendo como me sinto e sou vista hoje me dia, acho até que poderia (sem falsa modéstia) dizer que tem muito mais de meus pais em mim e de mim em meu filho do que eu imaginava e me orgulho muito disto!
Quando digo que nunca serei “amiga” de meu único filho (escandalizando muitos educadores e contra a maré que acha isso o máximo!) eu tento explicar que ter amizade por alguém (e tenho uma agradável e saudável amizade e admiração por ele) não significa que eu me relacionarei com ele como se ele fosse meu amigo, porque simplesmente ele é meu filho! Ser amigo significa abrir mão, necessariamente, de uma relação de autoridade (não de autoritarismo, vejam bem), pois amigos estão no mesmo patamar, condições iguais, regras iguais, direitos iguais e assim por diante.
Só que eu fui (até ele completar 21 anos) e ainda me sinto responsável por muitos aspectos da vida dele e de sua formação/educação e para exercer esta responsabilidade, conversando sempre quando possível e determinando quando não há outro jeito, eu nunca abri, ou abriria mão de minha autoridade de mãe.
Os pais são responsáveis não só em prover sustento e dar amor incondicional aos filhos (mesmo descobrindo depois com tristeza que para muitos a recíproca não é verdadeira), mas por passar seus valores e sua visão de mundo para que eles possam, mais preparados ou mais velhos, aí sim, analisar e optar se querem, aceitam ou rejeitam estes valores.
Enquanto eles não podem, sozinhos, construir ou adotar seus próprios valores, cabe aos pais garantir (ou pelo menos tentar e nunca se omitir) que nada do que tenha peso concreto – na formação da personalidade, na orientação das atitudes e na própria conformação de seu corpo e de seu caráter – deixe de passar por seu crivo, sua opinião e, sim, também por sua decisão.
Voltando à minha geração (e às que se seguiram), fomos criados experimentando a liberdade de exigir uma explicação para tudo, de discordar ou de não fazer sem sofrer as consequências e de cobrar muito sem sermos cobrados de quase nada. Quem não se sentiu ou não vê agora que tudo que damos a eles é pouco e tudo que eles fazem é por demais…tudo – chato, cansativo, ultrapassado, desnecessário etc e tal?
Tivemos tudo, muito mais do que a maioria de nossos pais teve acesso, e evoluímos enquanto sociedade em vários aspectos, principalmente em relação à igualdade de direitos, à liberdade de escolha e ao alcance de oportunidades.
Mesmo assim, não acho, sinceramente, que fizemos bom uso destes avanços, e vejo vários e importantes retrocessos, pois ao usufruirmos da liberdade da escolha (ou por necessidade) de trabalhar, por exemplo, muitos pais resolveram compensar suas ausências com bens materiais, a calar os gritos e esperneios com a babá eletrônica da TV e a diminuir o cansaço do dia dizendo sim a tudo que insistentemente é “requisitado” pelos pequenos grandes tiranos em que nossos jovens se transformaram.
Passamos a chamar de espertos e sadios os mal comportados e impacientes, de garotos com personalidade os respondões e grosseiros, de independentes os arredios e insubordinados. Quem levanta a mão (da consciência, é claro) e pode dizer que tem um filho(a) de fato, bem educado(a), como acredita que alguém assim deve ser? Se formos criteriosos com eles como somos com os filhos dos outros, poucos podem dizer que sim.
E a principal razão é que hoje é socialmente criticável assumir que como pai ou mãe a gente toma uma posição e a defende. Quem faz isto olha para o lado e se sente só, pois é “bicho raro” como se diz.
Afinal, como dizer não se eles trazem o irrefutável argumento de que “todos os meus amigos tem”, ou “por que só eu não posso ir se os pais dos meus amigos todos deixam” e, aí, viramos reféns de nosso medo e comodismo de dizer: não vai porque não é adequado à sua idade, não dou porque não tenho a mesma condição do pai de seu amigo (ou mais difícil, porque mesmo podendo acho que não devo) ou não deixo porque discordo com o que está acontecendo e assim por diante.
Criar filhos não é uma responsabilidade somente, é um compromisso nosso conosco (engraçado este termo, mas é assim mesmo, parece algo como “fiz por mim mesma”, sabe?), com o que defendemos, com eles e com a sociedade. Um compromisso que não acaba nunca! Não é fácil dizer não e impor limites, ainda mais quando já sabemos que poucas, para não dizer que quase ninguém tem a coragem de apoiar aqueles que tentam fazer isto com todo esforço, boa intenção e disposição enfrentando todo “mico” que isto representa no seu dia a dia.
Pois educar não é dizer não hoje e amanhã ceder para “não viver brigando” pois temos nossas convicções. Ou não?
Quantas vezes criticamos o alheio e não percebemos que se a “super nany” passasse lá em casa, é quase certo que nos diria que temos que tomar algumas lições!
Ainda vou falar muito disso, pois acho que esta é uma das principais raízes dos problemas de nosso País, que se estende para as escolas, para o convívio social e para os valores que nós buscamos e defendemos (ou deixamos de buscar e defender). Sei que tem muita gente já está cansada e descrente, por isto eu digo para elas: não desistam, vocês estão certos, pois o fruto se colhe depois com a paz na consciência…
Será que isto é coisa só nossa? Será que o mundo inteiro está assim? Esta fica para a próxima.
maio 22nd, 2011 at 12:58
Bia querida,sem dúvida esse é um assunto muito atual e super importante. Bom você estar tratando dele. Aguardo a sequéncia Muitos beijos FM
maio 22nd, 2011 at 19:32
Que bom que vc está aqui, comigo.
Sei que você vai contribuir muito para os pontos de vista que eu levantar aqui. Obrigada querida.
junho 15th, 2011 at 21:53
Querida Bia
Achei importantíssima a sua avaliação a respeito deste tema porque vejo também, a cada instante, cenas como as que você descreveu, onde os pais ficam sem saber o que fazer diante de uma birra, de uma grosseria ou de uma imposição dos filhos. A idade deles? 3, 4 ou 5 anos. Cedo não?!!
Você é da geração sanduiche e eu, muito antes de você, sou da geração “dos sem vez”.
Ouvíamos a todo instante “criança não se manifesta, não perguntei sua opinião e assim por diante.
Não acho que isso foi bom porque impedia o aprendizado da discussão e do debate.
Nem 8 nem 80.
Criei 4 filhas sempre com a preocupação de ouvir suas opiniões, suas contestações diante de um não, explicando exaustivamente, até que meu marido chegava e dizia: é não porque é não e ponto final. Isto surtia um efeito extraordinário, não que elas ficassem felizes mas percebiam que tinham chegado a um limite.
Hoje temos netos de 17, 14, 8, 6 e uma netinha de 6 meses e agora fico em contato quase que diário com os menores, cuidando mesmo deles, para minha filha trabalhar.
Meu neto de 6 anos eu diria que é um menino precoce e de muita opinião e não raro discutimos. Se eu bobear, a discussão fica de igual para igual. Nesta hora digo firmemente: é assim porque é assim e fim de papo.
E aí vejo como é precioso estabelecer o limite e como eles esperam e precisam disso.
É claro que os pais querem compensar a ausência em função do trabalho e temem não serem mais amados se forem muito rígidos.
É um problema bem complicado e seria tão bom se achássemos uma formula adequada aos dias de hoje.
Um beijo prá você, Roberto e Thiago.
Maria Cecilia
Adorei o seu blog!
junho 17th, 2011 at 11:43
OI querida:
Que bom ter você no meu blog.
Sabe que você falando me vem à cabeça que a criação de suas filhas foi muito próxima da minha e de meus irmãos, com a diferença que ao perdermos o papai ainda pequenos, mamãe teve que fazer os dois papéis.
Quem teve vários filhos, próximos de idade como você e ela, também pode verificar que outras variáveis geraram mudanças na formação deles, pois mesmo sendo o mesmo pai e a mesma mãe, a forma como lidamos com eles e, sem dúvida, as características de cada um que precisam ser levadas em conta, não são iguais, ou pelo menos (pensando na lei de ação e reação) nem todo filho responde da mesma forma ao mesmo tipo de limite imposto pelos pais.
Um é mais rebelde, outro é mais cordato, com um nós temos mais facilidade/afinidade, com outro parece que ele buscou de algum lugar valores e comportamentos que “não sabemos onde ele aprendeu isso!”.
Então, só nos resta uma análise de consciência para saber se fizemos a nossa parte (dentro daquilo que pensávamos ser correto à época, porque depois é mais fácil criticar não é?) e não nos omitimos, que é o que importa, mas sei quanto é duro manter uma postura e perserverar nela quando os demais núcleos de convivência do jovem, as mídias e a sociedade em geral parecem acusar-nos de sermos, no mínimo, ultrapassados, quando não somos tachados de tolos.
Veja a questão da criminalização da palmada e da devolução de dinheiro achado – na primeira todas as gerações passadas, incluindo nossos pais e nós mesmos, passariam a ser considerados criminosos tipificados no código penal (e isso eu não aceito pois não tenho críticas à educação que recebi de meus pais e nunca misturei palmada corretiva com agressão e não aceito que na picaretagem da política se vá determinar que a forma como fui criada está errada e/ou é criminosa porque levei algumas palmadas bem merecidas) e na segunda, quem devolve o que não é seu só porque achou na rua é considerado otário (como nosso ex-presidente disse ao vivo na TV uma vez), ou vira notícia no Jornal Nacional – tão rara é a prática!
Enfim, não podemos deixar que o Estado, ou a ignorância ou o modismo ditem as regras sobre nosso direito individual de tomar as decisões sobre quem está sob nossa responsabilidade. De resto, deveria prevalescer o bom senso. Pelo menos temos que ser capazes de explicar o que fizemos e a razão do nosso comportamento e isso eu sei que nós sabemos bem!
Mil beijos a todos e volte sempre aqui.
Bia
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